Outra equipa terminou o Euro sem somar nenhum ponto, mas a Rússia merece destaque porque, tendo pontuado, saiu precocemente eliminada de um grupo onde entrava como candidata ao segundo lugar. A surpreendentemente negativa carreira do conjunto russo abriu espaço para alguma discussão sobre um futebol que, na medida em que vai vendo aparecer e desaparecer grandes projetos de financiamento nos seus clubes, parece ter perdido o rumo em termos de seleção nacional. Depois de Leonid Slutsky sair, da mesma maneira que Fabio Capello também já havia saído, o que resta para reconstruir até que, daqui a dois anos, recebam o Mundial de futebol?

Um olhar aos números

A Rússia teve a pior defesa da fase de grupos, sofrendo seis golos em apenas três partidas, tendo marcado apenas dois, ambos nos últimos quinze minutos de jogo. Em termos de distância média dos golos sofridos, a Rússia surge também no segundo lugar, atrás da Suécia, com uma média de 14,7 metros, devido a um golo sofrido fora da área. Nos golos sofridos, quatro foram em jogo corrido e dois em lances de bola parada.

Apresentada como uma equipa mediana, os resultados expressam aquilo que se pressentiu desde o primeiro jogo. Que a ideia de jogo do técnico Slutsky não batia certo com a exigência da competição em que se encontrava. A Rússia foi uma das piores equipas na disputa de duelos, sendo mesmo a pior nos lances corpo a corpo. Também na disputa de bolas pelo ar os russos estão nas seis piores equipas do Euro, o que torna tudo um pouco mais incompreensível.

Em suma, utilizando o index da InStat, empresa que analisa estatisticamente todas as ações das equipas presentes no Euro 2016, a seleção da Rússia foi a 22ª com pior nota.

Dzyuba foi exceção

Dzyuba Russia

Dzyuba esteve em destaque mas não marcou

No plano individual, ficou também muito difícil encontrar um jogador que pudesse ser destacado do coletivo russo. Apenas Artyom Dzyuba teve algum impacto neste Euro, pela sua disponibilidade física na frente de ataque, ainda que consequência do plano tantas vezes repetido de procurar, através do passe longo, colocar a bola ao alcance do alto avançado russo. A equipa viveu a sua posse de bola, preferencialmente, na troca entre os dois centrais, Ignashevich e V. Berezutskiy, saindo daqui esse passe à procura do avançado.

No entanto, a não ter marcado nenhum golo, Dzyuba não confirmou todo o potencial que lhe é reconhecido, pelo que, aos 27 anos, não se adivinha que seja Artyom a trazer perfume do futebol russo para um dos campeonatos mais competitivos da Europa. Aliás, a carreira de altos e baixos no Spartak Moscovo, com ponto alto na primeira época no Zenit, mas, também, algumas interrogações, deixam dúvidas sobre o que mais poderá Dzyuba dar a uma equipa. E aqui estará parte do problema.

Entre clubes e a seleção

Apenas um dos 23 convocados de Slutsky evolui fora da Liga Russa, Roman Neustadter, que também nunca tinha jogado pela seleção, adquirindo a nacionalidade recentemente. No grupo orientado pelo técnico também apenas um dos jogadores tinha menos de 24 anos, o médio Golovin, deixando antever, de alguma forma, um deserto em termos de elementos mais jovens. Com sete jogadores cima dos 30 anos, também a idade começa a ser um peso.

A esperança estará nas gerações de formação. Campeão europeu de Sub-17 em 2013, finalista do Europeu de Sub-19 em 2015, será neste grupo de jogadores que se poderá concentrar o futuro da equipa russa. Golovin faz parte desse conjunto de jogadores, também todos eles a jogar na Liga Russa. O investimento nos clubes, com o crescimento do número de estrangeiros, prejudicou a evolução do jogador local, mas as normas que agora tentar dar mais espaço aos nacionais, levando a que exista dinheiro para os manter na Liga Russa mesmo quando apresentam nível para arriscar outras paragens, levam a algum isolamento em termos de variedade de experiências, algo fundamental nas principais seleções do mesmo nível competitivo. Será por aí que uma revolução no futebol russo terá que começar, para evitar um novo adeus precipitado.

Boas Apostas!