Para início de conversa, gastos com transferências e salários são coisas muito distintas. Infelizmente, e apesar da crescente obrigatoriedade em divulgar essa informação, as verbas oficiais declaradas pelos clubes são pouco fidedignas. Basta pensar no exemplo das transferências. Cada vez mais há um valor fixo e um valor variável, dependente do número de utilizações e resultados, a que ainda se podem juntar receitas de jogos amigáveis. Podemos fazer estimativas mas o valor real escapa-nos no imediato. No que respeita às remunerações, há uma parte fixa, bónus e ainda percentagens dos direitos de imagem. Ainda assim são mais fáceis de calcular. Optemos então por números mais estáveis, já que dependem pouco dos humores e egos dos clubes de futebol. Baseemos a reflexão no valor de mercado dos plantéis das oito equipas que chegaram aos quartos-de-final da Liga Europa esta época. Em ordem decrescente: os 24 jogadores da Juventus estão avaliados em 353 300 000€; segue-se o Benfica em 190 700 000€; FC Porto, 183 200 000€; Valencia, 116 100 000€; Sevilha, 112 400 000€; Lyon, 102 750 000; Basileia, 52 150 000€; Az Alkmaar, 43 900 000€. Os dados são da TransferMarkt.
Value for Money
A primeira coisa que salta à vista é a diferença abismal entre os extremos, os jogadores da Juve valem o equivalente a oito plantéis do clube holandês. Dito de outra maneira, a Vecchia Signora parece deslocada nesta listagem. Só eles têm ativos ao nível dos dos clubes que lutam neste momento pela Liga dos Campeões, ainda que do fundo dessa tabela. Faz sentido, já que na última década o objetivo da Juventus tem sido a primeira divisão europeia, ainda que sem grande sucesso por lá. O melhor que conseguiram neste período foram três presenças nos quartos-de-final da competição. As prestações na Liga Europa também não têm tido retorno de maior, os quartos da atual edição são o mais longe que chegaram nas três participações que tiveram nos últimos dez anos. Talvez por isso tenhamos a sensação que apesar do domínio que a Juve tem em Itália não se tem refletido fora de portas. Curiosamente, o AZ, uma verdadeira equipa do segundo escalão europeu, tem conseguido resultados bastante aceitáveis para a cotação que tem: em dez temporadas, três quartos (2006/07, 2011/12, 2013/14) e umas meias-finais (2004/05).
Confrontos diretos

Garay é o mais valioso do plantel do Benfica
Uma maneira de analisar o peso da cotação de um plantel é comparar valores de adversários diretos. Segundo o nosso parâmetro, Alkmaar-Benfica vence na categoria do confronto mais desequilibrado – os holandeses valem pouco mais de ¼ dos lisboetas –, seguido de perto pelo Lyon vs Juventus – os italianos superam três vezes e meia os franceses. Os 27 que alinham pelo Basileia não vão além de metade do valor dos homens às ordens de Pizzi. Já o desafio mais igualitário é o que envolve a outra equipa portuguesa, o Porto-Sevilha, com os nortenhos a corresponder a uma vez e meia o valor do seu antagonista. Esta balança cambial bate certo com os resultados mais prováveis adiantados pelas casas de apostas. Outra comparação interessante é a dos MVP’s de cada um destes plantéis. A diferença entre AZ e Águias é visível também aí, o ativo mais cotado do Benfica, Ezequiel Garay (20 milhões de euros), vale o quíntuplo dos elementos mais caros do Alkmaar, o capitão Nick Viergever, o sérvio Nemanja Gudelj e o islandês Aron Jóhannsson (4m€ cada). A Juventus, confirmando também nisto que lida com verbas de outro calibre tem dois jogadores avaliados à volta dos 45 milhões – Paul Pogba e Arturo Vidal – bem acima dos valores máximos do rival – 14m€ para Maxime Gonalons e 10m para os avançados Alexandre Lacazette e Gomis. O equilíbrio está mais patente nos restantes jogos. A joia da coroa do Porto vale 30 milhões, contra os 20 da estrela croata do Sevilha. Basileia e Valencia alinham, de um lado o guarda-redes Yann Sommer e Fabian Schar, ambos 8m€, do outro Jonas e Feghouli, 12 m€ cada.
Fazer mais por menos
Tendo em consideração as últimas dez temporadas podemos dividir estes oito candidatos à vitória na Liga Europa em dois grupos – aqueles que já a venceram e os outros. No primeiro grupo estão Valencia (2003/04), Sevilha (2005/06, 2006/07) e FC Porto (2010/11). O Sevilha é, sem dúvida, o mais bem-sucedido entre eles, com dois títulos, apesar de o Porto ser a única formação a ter conquistado também a Champions. Ainda assim cabe fazer uma ressalva para a estratégia do Benfica, que tem dado frutos. Não tendo tendo ganho qualquer taça, ainda, tem chegado consistentemente longe na competição, em especial nos anos mais recentes. Nos últimos cinco edições chegaram duas vezes aos quartos, a umas meias e a uma final. Na época transata foram finalistas vencidos, perdendo apenas para o Chelsea. Por aqui se conclui que o valor do plantel da Juventus não se traduz nem em títulos nem participações de relevo. Três presenças numa década saldam-se numa fase de grupos, uns oitavos, e os atuais quartos-de-final. Bastante abaixo do que tem feito o AZ. Pelo menos na Liga Europa a virtude ainda está no meio.
Boas Apostas!